o pecado da carne

Dos melhores achados da blogosfera:

“(…)

Uma mulher – sim, estava agora deitada na cama a achar que me dava jeito, por várias razões, ter uma companhia para me aquecer os pés e lembrei-me que realmente tenho quase trinta e os vintes e poucos já se foram todinhos – tem as suas necessidades. sim, assim como os homens. gostamos de carne e temos sede e gostamos tanto de pecado que tomamos tudo e mais alguma de assalto, dentro destas cabecinhas. sim, é verdade.

aparece um tipo que nos provoca. um tipo a quem achamos piada, mas de onde nunca saiu nada mais que conversas ocasionais, sem particular sintonia ou amizade. sem qualquer profundidade de laços. mas um dia, mais ou menos do nada, o tipo aparece e provoca – tão bem que sabe ter alguém do outro lado disponível – e, agora depende de cada um mas eu sou eu, vai daí damos-lhe troco. e, sem mais rodeios, uma noite acontece, porque duas pessoas que se provocaram mutuamente decidiram. ah, e tal, sem floreados, ser claros é que é bom, não há cá segundas intenções, é o que é, é sexo e mais nada, queres ou não? e porque gostamos de carne e temos sede parece tudo muito bem. e não é mau, quer dizer, depois depende tudo dos players, mas há sempre qualquer coisa a tirar dali. não é mau de todo, não foi mau de todo, e era bom que houvesse mais, pensa-se. adeus discernimento, adeus bom senso, adeus tudo e mais alguma coisa: aquele tipo tem sangue a correr-lhe nas veias, calor humano é bom, gostamos de carne e temos sede, por isso, que se lixe, é mesmo isto. é mesmo este tipo que quero, como quem diz: dava-me jeito ter alguém aqui disponível. ou mais: pode ser que um dia ele se engane e em vez de dizer ‘quero-te’ diga ‘amo-te’, esse tipo de merdas. pode ser que um dia ele se engane e durma connosco, nos aqueça os pés e até nos sorria quando acordar. talvez, é pouco provável mas nunca se sabe, ele nos ligue no dia a seguir, a contar uma trivialidade qualquer. talvez um dia saiamos da cama e vamos ao cinema e comer, de verdade. ou então não.

não há mal nenhum em gostar de carne e ter sede. uma mulher chega quase aos trinta e já viveu umas coisas, já os conhece, assim de forma geral, sabe o que a casa gasta, e começa a ser difícil haver surpresas tão horríveis de uma coisa que acontece ali, numa noite.

deito-me e olho para o lado: não está ali ninguém.

e penso: agora encontro-o na rua e fingimos que nos conhecemos no outro dia, que nunca nos vimos nus. agora encontramo-nos e os nossos amigos não sonham que um dia fomos outra coisa e nós, que sabemos, olhamo-nos sem nos querer ver nus – para não piorar o constrangimento – e sem querer revelar mais do que se é suposto saber.

resultado: perde-se um potencial amigo, porque já não era amigo, ficam menos probabilidades de se marcar encontros sem que o outro pense que o outro quer mais alguma coisa; começa-se a perceber que não haver floreados é uma merda, uma mulher gosta de carne e tem sede, mas também gosta de sonhar. Vestidos, no dia a seguir, as coisas não parecem nada, parece só que nunca existiram. Fica um vazio: não há provocações; não há hipóteses de cházinhos para fazer amizade; e sexo de uma noite ou é incrível ou nunca tem força para ser lembrado para sempre.

agora, o meu amigo f. que não me ouça, vale a pena? mas vale a pena ir ter com um tipo, aumentar a lista por descuido (porque existem grandes probabilidades de não valer a pena) sem dar tempo que nos peça o número de telefone – ou se descubra que nunca o pediria se não fosse para o tal encontro, à noite, no escuro; vale a pena assumir que não há floreados e não precisamos de sonhar, só de comer?; se é mesmo isso que queremos: ir a um encontro que sabemos que não se vai repetir, como se não fizesse mal?

Na verdade eu acho que não. Acho que não vale. Sensatamente, à luz do dia, no dia a seguir quando o encontro, sei que não valeu a pena. Não valeu, pronto.

Mas eu gosto de carne e tenho sede.

Não há nada a fazer. ”

Texto de: http://confinsdonada.blogspot.com/2011/01/ontem-fui-ao-meu-primeiro-concerto-do.html

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