no fundo do fundo do poço

Eu também acho que quando não se tem nada de bonito para dizer, mais vale ficar calado. Ainda assim trago este nó na garganta, por mais que tente não posso ignorar a situação, e encontrei quem escreva sobre ele melhor do que as minhas actuais capacidades (e afrontas) me permitem.

(texto de Joana Barrios,  na íntegra aqui)

(…)

À minha volta está tudo extremamente bizarro.

Calculo que à vossa volta também, porque vivemos todos relativamente perto.
E por muito que queira, sou fortemente influenciada pelo estado em que o país está, pelo estado em que os meus amigos estão, os meus pais, os meus vizinhos…
É demasiado evidente para enfiar a cabeça noutro sítio qualquer que não seja o sítio certo.
Consciência (- #putademerda).
É demasiado deprimente ler notícias, ir jantar fora ou fazer seja o que for…
Essas actividades que tanto amava tornaram-se uma espécie de via sacra.
O que vem nos jornais é mau demais para ser verdade e de resto está tudo vazio.
As pessoas estão vazias.
Não há nada.
Sinto-me permanentemente numa cena do Mad Max, só que sem o Mel Gibson e com menos roupa de cabedal.
Lisboa é um deserto.
Está um deserto.
Tornou-se um deserto.
Não serei a única a sentir isto.
Pelo menos os meus amigos de Facebook e os meus cerca de 120 Public Feed Subscribers funcionam como uma amostra de mais pessoal cheio de má onda para com a situação actual.

Gosto de assumir publicamente opiniões controversas sobre bainhas de calças, estampados e formas de vestir que considero piores que más, não gosto de entrar nos esquemas contestatários, de engrenar em movimentos pessimistas ou de derrotas, mas…

(…)

Os meus amigos do peito estão todos com um pé cá e outro lá.
 é por todo o lado, menos em Portugal.

Há três anos, quando vivia em Paris e decidi voltar para Lisboa, achei que estava a fazer o que estava correcto.
Hoje penso que o correcto era não ter regressado, por mais clichético que isto possa parecer.
E não é porque não ame o meu país, é só porque o meu país não me ama a mim, e todos nós sabemos que em qualquer relação é precisa alguma reciprocidade.
Não se pode amar nada que não nos ama de volta.
É básico e é sempre esse o conselho que damos às amigas e amigos que vivem amores não correspondidos: dizemos para abandonar a cena, para cagar nisso, para lhe darsilent treatment, para ir conhecer não sei quantas pessoas novas, para cortar com isso.
(Agora que penso nisto… Começo a achar que tenho uma certa atracção por relações em que só eu é que dou e raramente recebo. Complexo com nome grego qualquer? Hm?!…)
Está toda a gente a acabar com Portugal.
A ir conhecer cenas novas.

Escrevo em português, penso em português, vivo em Portugal, trabalho em Portugal e sempre que vou a qualquer sítio, levo Portugal comigo e explico o que é isto.
Mesmo quando vivi fora, fui portuguesa.

A minha pátria é a língua portuguesa – B’nardo (- ou devo dizer Nandinho ?!? E agora faço aquele gesto de, com o punho fechado, bater aqui do lado esquerdo, onde costuma estar o coração e digo -) you rule!

Decidi que ia viver aqui e construir qualquer coisa neste sítio.
Decidi que ia fazer o que quero e o que me faz feliz, mas na minha língua.
E quase todos os dias, quando abro os olhos e me arrasto para fora da cama penso: em que momento?

Devo acabar com Portugal?

Aqui as pessoas têm medo de tudo; não investem, não se vestem, não colaboram umas com as outras, não cooperam, não arriscam, não querem estar rodeadas de gente genial.
Vive-se feliz no meio da mediocridade.
E por mim estão à vontade, mas permitam-me fugir disso.
Será o movimento geral dos que ficam encerrarem-se em si próprios?
Porque é que não se contrata gente nova e espontânea pelo prazer do novo?
Porque é que só eu e mais meia dúzia é que nos atiramos de cabeça para piscinas onde nem sabemos se há água?

Tenho o prazer de ter os amigos mais talentosos e inteligentes que alguém poderia desejar.
Tenho mesmo esse prazer, que é enorme.
Mas muitos estão de malas feitas e não pensam regressar.

Será que ainda ninguém percebeu que a eventual saída da crise passa pelo fomento da criação (já nem digo artística, porque pronto… Depois da Gala (tanto ao nível do apresentador como ao nível de quem escreveu aquele texto e das áreas circundantes da mesma) dos Fashion Awards já não tenho nenhuma espécie de esperança na minha profissão…) de novas dinâmicas e postos de trabalho e oportunidades e etc?
Será que ainda ninguém percebeu que o capital tem de circular para que a economia (?!?) não pare?
Será que ninguém (e este ninguém é para o pessoal que tem dinheiro e que não lê este blogue, claro, mas fica a esperança…) entendeu que quem tem dinheiro tem de investir e tem de arriscar?
Será que alguém sabe quem é o John Maynard Keynes?
Será que alguém leu, realmente, o Capital?
E o o Lukács? Ninguém sabe quem ele é?
Alguém leu o Palácio de Cristal do Sloterdjik?
Alguém ainda compra livros?

Já nem sequer estou indignada.
Só estou triste com a falta de vontade de pensar destas pessoas que todos os dias sentam o cu nas cadeiras onde ainda chove dinheiro.

Essa merda um dia acaba, também para vocês, Lindos:

Quando começamos a jogar Monopólio, podemos começar com seis jogadores; quando reduzimos o número de jogadores do Monopólio a dois, o jogo demora três ou quatro minutos a seleccionar apenas um jogador, que é o vencedor.
E quando se vence o Monopólio, o jogo acaba.
Ninguém fica sozinho a jogar Monopólio.
Ou fica?

Estou triste e vagamente fodida por não ter namorado.
Sem isso, nada me prende aqui a não ser coisas como o lançamento do Império do Alexandre Melo, André e. Teodósio e Vasco Araújo, pela Assírio e Alvim, ontem à tarde.
A não ser isso e o prazer que me dá lê-los e saber que estamos ligados e que os nossos abraços são sinceros, nada, absolutamente nada, me prende aqui.
Só a alegria de falar português e de comer bons alimentos, de estar próxima dos que amo de forma fraterna e de fazer qualquer coisinha a título muito próprio, muito de vez em quando.

E desde dia 14 que canto estes versos, género mantra:

“(…) ‘Cause every time I look in the mirror 
I just wanna scream 
How are we gonna make History  
If you’re not here with me
Keep on keepin’ on, gotta keep the dream alive
Keep on keepin’ on, gotta make it not just try
Keep on keepin’ on, gotta keep the dream alive
Keep on keepin’ on, gotta make it not just try(…)”

in Let’s Make HistoryThe (International) Noise Conspiracy, Armed Love, Burning Heart Records, 2004.

É preciso muito menos para mandar uma relação à fava.
Por isso… O que é que me impede?
É porque o Portugal é o namorado mais alto que tive?

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