este dia também foi assim

«Morreu». É desta forma que a notícia nos chega. Uma única palavra que transmite todo o massacre que se avizinha nos próximos dias. «Morreu» e é preciso preparar tudo. Contactar a agência funerária. Reconhecer o corpo na morgue. Arranjar a roupa para vestir o corpo. Reunir a família com a agência funerária para discutir os últimos desejos do morto. Depois avisar a restante família e os amigos. Os conhecidos são avisados pelos anúncios que se colocam pelas ruas ou nos jornais. A notícia passa de boca em boca. Em casa é preciso procurar a roupa preta. Para mostrar ao mundo que estamos de luto. Como se uma cor reflectisse toda a nossa dor naquele momento. Não reflecte. A nossa dor é interior e não queremos receber pessoas em casa, a toda a hora, porque tudo o que mais se precisa nestes momentos é simples silêncio. «Os meus pêsames», «os meus sentimentos», «as minhas condolências», são tudo frases que muitas vezes são proferidas de forma mecânica juntamente com um aperto de mão sem se olhar para a cara da pessoa que está de luto. O caixão sai finalmente da morgue e chega à igreja. É preciso velar o corpo. É vergonhoso não estar ninguém a velar o corpo do ente querido que ainda agora partiu. E o verdadeiro massacre acontece aí. Estar numa igreja com um caixão, que tem o corpo do familiar, ali dentro, rodeado de flores, velas e por vezes de objectos que recordam o falecido até é o de menos. Ter que sentar na primeira fila de frente para esse caixão é tenebroso. O velório começa às 12h, mas é às 14h que a família toda se junta dentro da igreja. Vinte e quatro pessoas espalham-se em U à volta do caixão. «São todos da família?», questiona a primeira pessoa que contorna o caixão para cumprimentar a família enlutada. Os apertos de mão sucedem-se, os beijos na cara de pessoas que não conhecemos sucedem-se também, os abraços dos amigos chegados aconchegam um pouco, mas não podem ser demorados porque a pessoa que está atrás desse amigo quer ir sentar-se rapidamente para assistir à missa e depois poder ir à sua vida. Até que de repente surge aquele amigo de sempre, que conhece como ninguém a relação que tinhas com o morto, e cai-se num choro compulsivo que se aguentou a tarde toda. A restante família desaba, mas há sempre um ou outro familiar que não deita uma lágrima. As beatas comentam. «Por Deus nosso Senhor, nem uma lágrima deitou». O padre chega. Reza-se pela alma do ente querido. Benzemo-nos e temos de voltar a pensar. São precisos seis homens para carregar o caixão. É preciso pensar em quem. Mas antes disso há que respeitar o luto. A família quer despedir-se uma última vez daquele que durante anos marcou a sua vida. E as pessoas que assistiram à cerimónia não arredam pé. Querem ver quem chora, quem desmaia, quem toca no caixão, quem aguenta o familiar mais afectado ao longo da nave da igreja para que este não caia de joelhos frente a toda aquela gente. A família sai. O caixão sai carregado por seis homens da família que sustêm as lágrimas até ao cemitério. Lá fazem-se as últimas orações e o agente funerário pergunta se pode encaminhar o caixão para a campa. Os seis homens voltam a pegar no caixão. A partir daqui apoiam-se nos familiares mais próximos para ninguém desabar. Ouve-se choro por todo o cemitério. Quem o ouve do lado de fora dos muros brancos talvez pense que há carpideiras presentes. Não há. Graças a Deus. «Posso mandar tapar?», pergunta o agente funerário ao familiar responsável pelo corpo. «Pode.» A primeira pá de terra é atirada. E de repente a família começa a ficar sozinha. «Precisam de alguma coisa?», pergunta um ou outro amigo ou conhecido, muitas vezes com esperança que a resposta seja não. «Não», responde o familiar inquirido. O luto só começa agora, de verdade. A dor da notícia que se recebeu dias antes aparece de repente. O «morreu» volta a fazer eco na cabeça. O luto só começa agora. A morte do nosso ente querido começa agora. O sofrimento atroz começa agora. E não há uma igreja cheia de conhecidos para amparar-nos. Só os verdadeiros amigos aparecem. Só esses se preocupam connosco, em saber se verdadeiramente precisamos de alguma coisa, mais que não seja oferecendo um colo ou um ombro para chorarmos. Custou, mas sobrevivemos ao funeral. Sobreviveremos agora à morte do nosso ente querido?

Por Andreia Miranda, in Papel

8/6/2009. E a luta continua.

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